11/11/2015 às 14h49min - Atualizada em 11/11/2015 às 14h49min

Estiagem afeta gado de corte e produção de leite no ES

Atividades movimentam quase 13% do agronegócio do estado. Cooperativa de leite teve queda de 450 mil litros por dia para 300 mil litros.

G1 ES

As atividades agropecuárias movimentam quase 13% do agronegócio do Espírito Santo. Só em 2014, 480 mil litros de leite foram produzidos e 380 mil cabeças de gado abatidas. Apesar disso, o período estiagem por que passa o estado tem comprometido propriedades rurais e dificultado a pecuária.

Mais de 1,3 milhão hectares são de pastagens no estado, sendo que o espaço é ocupado por 2.270.986 cabeças de gado. Destes, 60% é de gado de corte e 40% de vacas leiteiras.

Pelas estradas do Espírito Santo, o que se vê é um cenário desolador, com pastos secos, degradados e, em muitos pontos, praticamente não há mais capim. Em Presidente Kennedy, o produtor José Araújo trabalha com o filho em uma pequena propriedade, de dois hectares, em Santo Eduardo.

Com a forte estiagem, o capim secou e o que restou foi destruído por uma lagarta. “Não tinha nada para dar para o gado. Até pensei em desanimar, mas minha família e meu filho não deixaram e conseguimos superar a crise de lagarta e a seca”, falou o produtor.

A propriedade chegou a ter 18 animais, mas, por conta do pasto seco e da dificuldade de alimentação, o número de vacas foi reduzido para 12. E elas só se mantêm porque alguns insumos usados na ração foram doados pela prefeitura.

“Diminuí para poder manter a média de leite e sobrei a ração, porque não tinha suficiente para dar a todos. Não teria como você dar continuidade se não tivesse incentivo da prefeitura”, disse José Araújo.

Na propriedade, a ordenha é automática, mas só há uma ordenhadeira. As vacas, todas mestiças, produzem 110 litros de leite por dia. Toda a produção é encaminhada para uma cooperativa de leite em Cachoeiro de Itapemirim, que é a mais antiga do estado.

“A cooperativa não tem interesse em ganhar dinheiro do produtor. Ela tem interesse em ganhar dinheiro para os produtores, porque esse é o objetivo. Nós somos reguladores do mercado, para que as indústrias procurem pagar melhor os produtores”, falou o presidente da cooperativa, Rubens Moreira.

Com a forte estiagem e a dificuldade dos cooperados em alimentar o gado, a produção média da cooperativa caiu de 450 mil litros de leite por dia para 300 mil litros por dia. Tudo o que chega à cooperativa passa por uma análise e o produtor que tem qualidade recebe melhor, sendo até R$ 0,07 a mais por litro de leite.

“O que nós precisamos é fazer algumas intervenções no processo produtivo, na produção primária. O produtor precisa entender primeiro o processo de qualidade. Aqueles que não tiverem uma boa produção com boa qualidade não vão continuar no mercado”, afirmou Moreira.

Noroeste
Por conta da seca e da falta d'água, o Noroeste do estado também tem passado por dificuldades nas atividades pecuárias. A veterinária e produtora rural Paula Galo contou que teve que suspender a irrigação em horários do dia, para preservar a água. 

“A gente está passando apertado, porque, com essa seca, a quantidade de água está bem escassa e a gente não está irrigando nas partes mais frescas do dia, para ter uma perda menor dessa água”, falou.

A propriedade da família Galo fica no distrito de Ângelo Franquiano, a 22 km do Centro de Colatina. São 1,2 mil cabeças de gado que produzem leite, que é levado para uma cooperativa em Nova Venécia.

“A cooperativa ajuda muito, porque ela paga pela qualidade do leite e, então, isso incentiva o produtor a melhorar o rebanho e melhorar a maneira de trabalhar. E acaba ajudando de outras formas também, tentando comprar insumos para o produtor, para baratear os custos”, explicou.

De janeiro a setembro deste ano, a cooperativa deixou de receber mais de R$ 6 milhões litros de leite, em comparação ao mesmo período de 2014. Na propriedade da família Galo, a produção média era de 2,5 mil litros de leite por dia e, com a seca, caiu para mil litros de leite por dia.

Para os animais não ficarem sem alimento, a pecuarista tem encontrado formas de driblar a seca. “A gente utiliza o piquete rotacionado também como uma maneira de escapar dessa seca, porque, a gente tendo um volumoso em campo, conseguimos diminuir o volumoso no coxo, relatou Paula.

Como é difícil e caro trazer ração de outros estados, a solução encontrada pela família Galo foi plantar o próprio milho e produzir a silagem na propriedade. São seis hectares com milho que vão virar ração para gado.

“Isso tem sido nosso alicerce, porque o único objetivo que a gente tem é poder ter alimento guardado, para épocas como essa que a gente está passando. O pequeno produtor não consegue fazer isso. Ele teria que ter um apoio para conseguir se manter dessa forma, comprando um insumo mais barato”, disse a veterinária. A silagem pronta é armazenada em trincheiras e, assim, dura até dois anos.

Gado de corte
Com 1,6 mil cabeças de gado de corte, sendo a maioria nelore, a família Galo teve que transferir grande parte para outra propriedade, que fica em Pancas. “Tiramos cerca de 700 cabeças de gado da propriedade e trouxemos para essa, que tem uma questão de pastagem um pouco maior, uma cobertura maior de capim”, falou Paula.

Para melhorar a genética do gado de corte e de leite, a veterinária e pecuarista decidiu investir no laboratório de fertilização in vitro, que atende a vários produtores do estado.

“A gente coleta os ovócitos da vaca a campo, traz para o laboratório para ser fecundado. A partir da hora que o embrião estiver pronto, ele vai voltar a campo para ser implantado na mãe de aluguel. A vantagem é que você tem a multiplicação em larga escala de um animal melhorado”, explicou.

O gado de corte é vendido para um frigorífico em Colatina. Eles produzem cerca de 90 toneladas de corte de carne por dia, além de produtos como linguiça e hambúrguer. Quase metade da produção é exportada para países árabes e da União Europeia.

Diretor operacional do frigorífico, Edvaldo Lievore falou das dificuldades encontradas no mercado. “Hoje, nós temos, como cliente, um mercado mais exigente e estamos atravessando uma seca muito grande no nosso estado. Se nós tivéssemos esse suplemento, nós teríamos um animal de melhor qualidade para atender nossos mercados, tanto interno quanto externo”, afirmou.

O estado tem um rebanho de mais de 1,3 milhão de cabeças de gado de corte. Em 2014, foram abatidas quase 400 mil cabeças, mas a situação atual de estiagem tem comprometido essa produção.

“O que o mercado exige é um boi com maior precocidade, um boi mais jovem, com acabamento de gordura melhor também. Na nossa região, nós temos poucos produtores que conseguem fazer esse acabamento, em virtude do suplemento. Nós temos alguns confinamentos no estado que já atendem, mas são poucos perante a demanda”, ponderou Lievore.


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