14/04/2015 às 11h00min - Atualizada em 14/04/2015 às 11h00min

Arrecadação milionária não elimina a pobreza em Presidente Kennedy

Gazeta Online
Na cidade que mais arrecada no Estado, 68% das pessoas não têm rede de esgoto (Foto: Edson Chagas/Arquivo AG)

Dinheiro não falta em Presidente Kennedy, no Sul do Espírito Santo. A cidade lidera o ranking nacional de arrecadação por habitante, com R$ 30.164,78 por pessoa. É o que mostra um levantamento feito pela Universidade de São Paulo (USP). O valor corresponde a 11 vezes a média brasileira de arrecadação em municípios, que fica em torno de R$ 2,5 mil. 

O estudo foi feito a pedido do programa Fantástico, da TV Globo, e o resultado foi exibido no último domingo: tanta verba não se reverte em serviços para a população.
A despeito do caixa farto, o cenário é de ruas sem calçamento e falta de infraestrutura na saúde pública. A taxa de analfabetismo é de 17,9% e a pobreza extrema atinge cerca de 9% dos habitantes, de acordo com dados do IBGE. Paralelamente, 68% dos moradores têm rede de esgoto. 

Nem parece a cidade que também é a que mais recebe recursos em royalties e participação especial no Estado – R$ 251 milhões em 2013. 

Os percentuais negativos ficam nítidos quando os habitantes expõem os problemas enfrentados no dia a dia. A esposa do comerciante José Hora morreu por falta de atendimento médico adequado. “Qualquer pessoa que perde uma pessoa da família se revolta com a situação daqui. Meu Jesus do céu!”, afirmou ele à reportagem do Fantástico.

O aposentado Aldeir Peixoto teve a casa derrubada por uma ventania há sete meses e até hoje espera pelo auxílio da prefeitura. “A assistente social veio, gravou tudo, mediu, e disse que resolveria o problema. Até hoje, nada”, contou.

Lee Oswald 

Não é a primeira vez que Presidente Kennedy ganha notoriedade por motivos negativos. Em 2012 o então prefeito do município, Reginaldo Quinta (PTB), e seis secretários municipais foram presos na Operação Lee Oswald, da Polícia Federal, que apurou fraudes em processos licitatórios.

Na época, A GAZETA mostrou como o grupo político de Reginaldo Quinta conquistou popularidade, mesmo em meio à carência de recursos básicos para a população: distribuição de cestas básicas, ônibus de graça para os moradores, festas e shows até com artistas de renome nacional. 

Nas eleições de 2012 a sobrinha do ex-prefeito, Amanda Quinta (SDD) – se elegeu com 57% dos votos. Ela fazia parte da administração do tio, como secretária de Cultura, e virou candidata a prefeita na reta final da eleição.

Em entrevista à TV Gazeta Sul a prefeita disse, ontem, que tem feito investimentos para a melhoria da qualidade de vida da população e que não pode responder por atos passados. 

“Não consigo fazer em dois anos o que não foi feito em 50”, afirmou Amanda.

“Virou prioridade colocar água e esgoto para o município inteiro. Presidente Kennedy desde 50 anos de emancipação nunca teve esgoto tratado. Doze estações de tratamento de esgoto que resolveriam o problema de 80% da população estão em fase final de licitação”, garantiu Amanda.

Ela também disse que sabe que os recursos do petróleo não vão durar para sempre, mas que ainda não pode implementar uma política de atração de novos empreendimentos para a cidade porque prioriza o investimento na área social.

Anchieta e Itapemirim: problemas se repetem
 
O estudo da Universidade de São Paulo (USP) que aponta Presidente Kennedy como a cidade com maior arrecadação por habitante do país tem também outros dois municípios capixabas no ranking das abastadas: Anchieta, na 5ª colocação, e Itapemirim, na 18ª. 

A lista é composta pelos 280 municípios com maior receita corrente per capita nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste do país. 

A média dessa receita em Anchieta em 2013 foi de R$ 12,6 mil. A cidade de 27 mil habitantes é a sétima em recebimento de royalties e participações especiais no Espírito Santo, com R$ 33,8 milhões em 2013, de acordo com a revista Finanças dos Municípios Capixabas.

O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) de Anchieta é de 0,73, segundo o IBGE, considerado alto. Mas os anchietenses também enfrentam problemas. De acordo com o próprio instituto, a taxa de pessoas de 15 anos ou mais de idade que não sabem ler e escrever é de 6,8%.

No que se refere a escândalos no meio político e questionamentos à administração pública, Anchieta também teve sua cota. Em 2013 dois ex-prefeitos da cidade, Edival Petri (PSB) e Moacyr Carone, foram presos na Operação Derrama, da Polícia Civil. A operação apurou a existência de um esquema de cobrança ilegal de impostos a grandes empresas em oito municípios.

Itapemirim 

Os escândalos políticos chegam também a Itapemirim, que teve uma ex-prefeita, Norma Ayub (DEM), presa na mesma ocasião, e que agora enfrenta nova crise política, com o afastamento do prefeito Luciano de Paiva (PSB). 

A média da receita corrente per capita de Itapemirim em 2013, de acordo com o estudo da USP, foi de R$ 9.197,83. O município é o segundo no Espírito Santo que mais recebe royalties do petróleo e participação especial. Foram R$ 167 milhões em 2013, segundo a revista Finanças dos Municípios Capixabas.

O índice de pessoas de 15 anos ou mais que não sabem ler e escrever é de 11,6%, de acordo com IBGE. 

A cidade vive dias turbulentos após mais um escândalo, a Operação Olísipo, do Ministério Público Estadual, deflagrada no último dia 31.

Há, de acordo com o órgão ministerial, suspeita de superfaturamento em contratos firmados pela prefeitura entre 2013 e 2014 para desviar dinheiro público. A reportagem não conseguiu contato ontem com a prefeita em exercício de Itapemirim, Viviane Peçanha (PSDB), e nem com o prefeito de Anchieta, Marcos Assad (PTB).


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