17/03/2015 às 14h00min - Atualizada em 17/03/2015 às 14h00min

As veias abertas de Presidente Kennedy

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Foto: Priscila Tieppo/UOL

Ilauro Oliveira

Ao relatar a história de cobiça, riqueza e miséria da América Latina, no seu livro “As Veias Abertas da América Latina”, Eduardo Galeano lembra que quanto mais rico um país ou um lugar, maior o grau de exploração e de sofrimento da sua gente. Pode haver algum exagero nesta conclusão, porque em alguns casos este mesmo povo que deveria ser vítima transforma o solo rico em herança bendita. Basta que tome as rédeas do seu destino.

As mesmas asas do condor que levaram o escritor uruguaio às minas de prata de Potosí, na Bolívia, passam sobre Presidente Kennedy, num vôo de horror e medo de que uma das cidades mais ricas do Brasil, per capitamente falando, graças à exploração de petróleo, siga o destino infeliz da colega boliviana e deixe em curto tempo apenas os fantasmas da ganância e da exploração desenfreada, custando a miséria de sua gente.

Com menos de 12 mil habitantes, mas com o maior PIB (Produto Interno Bruto) per capita do Brasil (R$ 511.967,24), Presidente Kennedy tem uma dura realidade a ser superada, mas um caminho farto de esperança, desde que as forças populares se unam para fazer um novo destino. A superação do seu péssimo IDH (índice de Desenvolvimento Humano), bem como dos problemas estruturais como falta de saneamento básico e melhorias em estradas, saúde e educação, passa unicamente pela esfera do poder.

A boa notícia para isso é que existem recursos fartos, problema crônico para milhares de cidades brasileiras. A má notícia é que falta unidade política, o que também de todo não chega a ser novidade. A cidade repousa sobre duas fontes inesgotáveis de esperança para sua gente: primeiro, os quase dois bilhões de reais nos cofres da prefeitura que podem ser investidos fartamente, segundo um investimento bilionário do Porto Central, que vai gerar mais dinheiro e mais trabalho para a população.

Mas além da divisão política, o problema da cidade batizada com o nome do ex-presidente norte-americano parece ser também aquela velha piada da esquerda brasileira: o que faremos com os estados unidos depois que a nossa invasão for bem sucedida? Qual rumo daremos? Temos competência para administrar?

 

Três grupos políticos e uma tragédia

A divisão política em Presidente Kennedy atualmente é formada por três grupos gerados de uma mesma árvore: Aluísio Corrêa (PR). O ex-prefeito veio primeiro, depois colocou seu vice, Reginaldo Quinta (PTB), que virou prefeito também e por fim colocou no poder sua sobrinha Amanda Quinta (SDD). Hoje o trio está separado, em caminhos opostos e às vistas de um grande confronto político eleitoral em 2016.

Mas no caminho dos três o que antes era amor transformou-se em briga. E a origem também é a mesma: a não subordinação a decisões políticas externas. Simples: Aluísio colocou Reginaldo querendo dele canetadas cegas quando se sentasse na cadeira de prefeito. Não conseguiu. Ao tentar ser prefeito sem a caneta, Aluísio enfrentou a resistência da sua criatura. E o aprendiz foi-se fazendo pelas próprias convicções até superar o criador. Seria prefeito reeleito facilmente contra o próprio criador se não fosse...uma tragédia política que mudaria para sempre a pequena cidade.

Há quase três anos, quê se completa agora em abril, uma operação chamada Lee Oswald levou 50 pessoas para a cadeia, entre elas o próprio prefeito Reginaldo Quinta, numa desmoralização das maiores do Espírito Santo.  A acusação principal: corrupção, com desvios de milhões de reais. A tragédia maior: a perda da auto-estima do cidadão kennedense que viu sua cidade estampada para todo o país como um antro de corrupção.

Como era de se esperar, as acusações da esfera administrativa ressoaram na política. O então candidato à reeleição impedido legalmente de disputar, mas catapultado pela grande aceitação popular, em uma jogada de (quase) mestre recolheu-se à insignificância da lei eleitoral e colocou em seu lugar a sua sobrinha Amanda Quinta. Um detalhe: a agora candidata não era a preferida na linha sucessória. O ex-prefeito na verdade trabalhava para fazer futuramente Geovana Quinta, que acabou descartada porque também foi alvo na mesma operação policial.

Eleita, Amanda viu sua musculatura política crescer na mesma proporção que os laços familiares foram sendo rompidos. Inicialmente escalada para ser a “pau mandada” do tio, assumindo para si compromissos anteriores, a prefeita e sobrinha passou a dizer não, contrariando assim interesses maiores. Daí as relações antes amorosas e de confiança familiar foram perdidas e desfeitas, dando lugar um patamar de adversários políticos. Por isso, a jogada foi quase de mestre.

 

Mudança de Gestão e credibilidade

Com poder nas mãos, Amanda cercou-se de bons assessores e de boas parcerias, principalmente com a Câmara de Vereadores, para enfrentar o desafio de tirar Presidente Kennedy do atoleiro moral que se encontrava. O município que ela pegou estava sob intervenção política e administrativa, sem prefeito, sem crédito, sem respaldo e sem direção.

Com um apoio técnico do secretariado, com alianças políticas sólidas junto a deputados e do próprio governo estadual, antes distante, foi batendo dia a dia na porta das instituições estaduais como Ministério Público e Tribunal de Contas com vistas a resgatar a credibilidade dos atos administrativos, resguardando a imagem da sua gestão e solidificando apoios antes distantes.

O saldo hoje é de uma nova imagem. O governo Amanda Quinta Rangel entra no seu terceiro ano sem nenhum tipo de escândalo, mancha de corrupção ou decisões jurídicas e técnicas que desabonem a sua trajetória ou ameacem o seu futuro. Desvinculou-se do passado para construir um futuro para Presidente Kennedy. Futuro cuja decisão cabe ao povo ajudar a construir.

Mas se tem feito direitinho o dever de casa para fora, falta ainda melhorar a imagem para dentro, para perto do povo. Há ainda a ausência de ações mais fortes com obras e melhorias concretas. Tem feito? Sim. Mas precisa ampliar. Ordens de serviços devem ser dadas com mais freqüência a partir de agora, o que em tese deve alavancar a sua administração e imagem. O que ainda permeia é a ideia de falta competência para gerir os recursos existentes.

É urgente mudar esse imaginário popular destravando o freio de mão administrativo, mas sem se perder em ações que deixem transparecer que o município esteja regredindo a desmandos e de falta de austeridade com os recursos públicos. Isso às vezes tem custo alto, mas é o caminho certo.

E mesmo que atitudes antipopulares como cancelar a grande e tradicional Festa de Jaqueira possam deixar um vazio na população, é preciso fazer com coragem, se for o caso. De cara essa medida causa desgastes, mas aos olhos dos capixabas trata-se de decisão acertada e coerente: como uma cidade passando por uma seca das mais terríveis da sua história pode se dá ao luxo de gastos milionários com festança? É preciso choques de credibilidade para a mudança da imagem. É o que tem sido feito.

 

Futuro sem volta

Ano que vem é ano eleitoral. É quando o povo é soberano e suas decisões devem ser respeitadas. Mas para Presidente Kennedy parece só haver um caminho: o de seguir em frente. A mancha deixada pode até retardar os avanços do presente, devido ao tempo que se perde realinhando a máquina, corrigindo as distorções e recuperando a imagem, mas não pode de maneira nenhuma comprometer o futuro.

É imprescindível que esse caminho sem volta para um futuro melhor seja compreendido. É fundamental que os agentes públicos não de Presidente Kennedy, mas de todo o Espírito Santo, se realinhem com o momento atual e ajudem a construir novos tempos. Dar fim à miséria das cestas básicas é tão mais importante par esse povo do que construir um porto bilionário para eles.

É preciso que o Espírito Santo comprometa-se com os kennedenses dando-lhes formas de caminhar sem as muletas da dependência. Quem sai na foto com os investidores do Porto Central deve ser o mesmo que esteja comprometido com o fim do assistencialismo que prende o povo nos grilhões da ignorância. Pode um governador, um deputado ou um vereador estar preso à essa fotografia vexatória?

A reconstrução de Presidente Kennedy e da sua imagem é tarefa de muitas pessoas e não só de quem está lá gerindo nesse momento. De todo o Espírito Santo que precisa ver aquela cidade como orgulho e bom exemplo de gestão. A fotografia ruim do passado deve ser arrancada da parede pelas mãos dos capixabas esperançosos com o futuro para que não vivamos a vergonha de ter ao nosso lado uma nova Potosí: rica, mas de povo miserável.


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