26/06/2016 às 10h19min - Atualizada em 26/06/2016 às 10h19min

Uma cidade bilionária marcada pela pobreza

Em Presidente Kennedy falta de tudo: até salário para servidores

Gazeta Online

Foto: Carlos Alberto Silva

Placa na entrada da cidade: estrada de terra leva a lugar com pouca oportunidade

A cidade de Presidente Kennedy, no sul do Estado, ostenta vários títulos positivos quando o assunto são recursos públicos: maior PIB per capita do país, município que mais recebe royalties de petróleo no Estado, entre outros. No caixa municipal há mais de R$ 1,1 bilhão atualmente. Mas, contrastando com as cifras, o que se vê na cidade, hoje, são servidores com salários atrasados e queixas da população pela falta de oportunidades. O desemprego é alto.

Para quem vive lá, o descompasso entre cofres cheios e serviços e infraestrutura precários é evidente. Uma das demonstrações disso é que desde o início do ano os salários pagos pela prefeitura não caem na conta antes do dia 15 de cada mês. A causa seria, segundo a administração de Amanda Quinta (PSDB), queda na arrecadação.

Embora os royalties não possam ser usados para despesas com pessoal, chama atenção dos moradores como uma cidade bilionária, com apenas 11 mil habitantes e menos de mil servidores, chegou a tal situação.

E não é a primeira vez: em 2012, quando o então prefeito Reginaldo Quinta (PMDB) foi preso, o interventor que assumiu o município também encontrou salários atrasados – mas na época, o país ainda não estava em crise.

“Estamos entrando em junho para poder receber a receita de maio”, explica o assessor técnico especial do gabinete da prefeita, Luiz Carlos Menditi, escalado por Amanda para receber A GAZETA, na última terça-feira.

Foto: Carlos Alberto Silva

A comunidade de Boa Esperança é um retrato da cidade que tem dinheiro para construir posto de saúde, mas não tem para contratar médicos

Excluindo o dinheiro do petróleo, o grosso da receita de Kennedy é composto do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e de ICMS. É com esses recursos que a folha de pagamento, de R$ 3,43 milhões mensais, pode ser paga.

Tíquete de R$ 900

De acordo com Menditi, a maior parte dos aproximadamente 150 servidores comissionados recebe salários na faixa de R$ 1 mil. Os que têm salários maiores estão em funções-chave, como secretários, procuradores e médicos. E apesar do discurso de crise, a prefeitura não fala em demissões.

“Estamos enxugando no que pode. Mas cortar alguém que ganha um salário-mínimo vai ficar muito mais caro para o município. Ele vai ter que receber cesta básica, aluguel social e ainda vai ficar à toa na porta da prefeitura, porque não tem emprego em lugar nenhum”, destacou o porta-voz de Amanda.

Em Presidente Kennedy, embora os salários estejam atrasados, todos os servidores – de garis a médicos – recebem um tíquete-alimentação de R$ 900 por mês. E isso está, sengundo Menditi, em dia.

“Você não fica sem comer. Vai dando um refresco até receber o salário. Pelo menos a alimentação da sua família você tem”, explicou o assessor técnico.

Mesmo prejudicados, os servidores não reclamam. “Como Kennedy tem os royalties é muito visado. Mas o município é pobre, como os outros. Não reclamo, tem lugar que é pior. Temos que agradecer as oportunidades”, afirma Jairo Fricks, funcionário da área da saúde.

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Nem a praia turística tem estrutura

Foto: Carlos Alberto Silva

Walas largou os estudos e hoje está desempregado

Os investimentos feitos com recursos dos royalties, que poderiam melhorar a vida dos moradores de Presidente Kennedy, não atingem este objetivo, também como reflexo da falta de recursos para pagar servidores.

Um exemplo é a unidade de saúde da comunidade do distrito de Boa Esperança. Após um investimento de R$ 711,5 mil, a obra foi finalizada no começo do ano, o local equipado, mas nunca realizou atendimento.

“Na audiência pública, a prefeita informou que por enquanto não tem dinheiro para contratar funcionários para trabalhar lá. Enquanto isso, está gastando para manter vigia”, contou Patrícia Luciano, de 25 anos, moradora da região.

A aposta da prefeitura para solucionar o problema é gerar novas receitas, de acordo com o assessor Luiz Carlos Menditi.

Um dos projetos é gerar turismo em Marobá, no litoral. Hoje, o local é quase uma praia deserta, com apenas um restaurante e algumas choupanas de palha.

“O local é a menina dos olhos da Amanda. Mas quem quer vir para um lugar que não tem água nem esgoto? É muito pouco tempo para muita exigência” disse Menditi.

Não tem escola, mas tem bolsa de estudo

Foto: Carlos Alberto Silva

Para Neuza, a cidade ainda é carente de vários serviços

Apesar de não contar com serviços compatíveis com o que os royalties seriam capazes de proporcionar, a população de Presidente Kennedy tem poucas reclamações de áreas essenciais.

Isso porque o dinheiro do petróleo ainda é aplicado em políticas assistencialistas que, a curto prazo, enchem os olhos de um povo onde um em cada cinco moradores não sabe ler ou escrever.

O transporte público, pelos ônibus do Transkennedy, é gratuito. Na educação, há escolas até o Ensino Médio, mas em vez de investir no ensino local, a prefeitura paga bolsas de estudo integrais da graduação até o doutorado para as pessoas estudarem fora. No ano passado, foram R$ 14 milhões.

Na área da saúde, não há hospital na cidade, mas os moradores têm ambulâncias para levá-los ao médico. Cirurgias, remédios e até fraldas são custeadas pela prefeitura.

Para a população de baixa renda, é fornecido um tíquete-feira de R$ 100 por mês. E como a principal atividade econômica da cidade é a pecuária, a prefeitura distribui cana-de-açúcar e ração para os produtores.

A prefeitura defende que a vida da população tem progredido: “Nesta crise, todos os lugares estão fechando lojas. Aqui em Kennedy não tem nada fechado. Pelo menos, estamos dando com uma mão, e pegando com outra. Ainda há uma movimentação financeira que se reverte para o município”, afirmou o assessor técnico Luiz Carlos Menditi.

Contraste visível

Foto: Carlos Alberto Silva

Na área urbana, também surgem efeitos da crise financeira

Ao caminhar pelas comunidades da cidade, o que se verifica, no entanto, são pessoas que por mais que tenham o básico, vivem sem perspectivas.

“Não posso reclamar, eles nos dão muita coisa que precisamos. O maior problema é que não tem emprego. Para quem vive da lavoura também está difícil, principalmente nós que temos pouca terra”, contou o jovem Walas da Costa, de 23 anos. Ele largou os estudos no 1º ano para trabalhar e agora não consegue tirar o sustento com a agricultura.

A lavradora Neuza das Neves, de 54 anos, também tem passado dificuldade para manter a família com o cultivo de mandioca. Moradora de Boa Esperança, ela acredita que os recursos poderiam ser melhor aplicados, e revertidos em uma cidade mais desenvolvida.

“Recurso eles têm. Do que adianta termos um posto de saúde e uma escola na comunidade, se ficam fechados?”, questiona a moradora.

A prefeitura rebate. “Amanda está fazendo tudo o que pode. Ela só não pode abrir uma poupança e depositar na conta do morador”, afirmou Menditi.

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